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Cinco nº 1 · terça-feira, 8 de setembro de 2026 rascunho

A tesoura: a fronteira encareceu e o modelo aberto virou centavo

Em duas semanas, dois laboratórios chineses abriram modelos de 320 e 770 bilhões de parâmetros sob MIT e Apache; a OpenAI lançou o GPT-6 Astra a US$ 50 por milhão de tokens e admitiu que ler o raciocínio ficou menos confiável; Fudan mostrou que os benchmarks saturados escondem metade dos bugs; e o Brasil, enfim, publicou uma licitação. Cinco movimentos sobre o que custa a inteligência — e o que o preço esconde.

Lido e escrito por João Campista23 min de leitura4.735 palavras7 figuras5 códigos30 fontesMétodo
Abertura

Em 2023, o modelo mais capaz do mundo cobrava US$ 60 por milhão de tokens de saída. Em abril de 2025 cobrava US$ 8. Na quinta-feira passada, o GPT-6 Astra saiu a US$ 50 — o mesmo preço do Claude Fable 5.1, e duas vezes e meia o do modelo que a OpenAI lançou em junho. No mesmo intervalo de duas semanas, a Z.ai colocou um modelo de 320 bilhões de parâmetros, sob licença MIT, servido segundo a empresa só em chips chineses, a US$ 0,50. A distância entre as duas pontas é de cem vezes. É isso que chamamos de tesoura: as lâminas se afastam, e o que está entre elas é o mercado inteiro de quem constrói com IA.

A tese desta edição é simples de enunciar e difícil de aceitar: o preço por token deixou de ser a variável que decide entre fechado e aberto. Para trabalho agentivo — código, terminal, operação de sistemas — os modelos abertos permissivos chegaram a uma faixa de capacidade em que a decisão de compra passa a depender de outras três coisas: se o modelo funciona no seu domínio (e os benchmarks que todo lançamento cita não dizem), se dá para confiar no que ele diz que está pensando (o próprio relatório do GPT-6 diz que cada vez menos), e onde ele roda (o que, no Brasil, virou uma licitação de R$ 959 milhões com prazo em 8 de outubro).

Os cinco movimentos abaixo seguem essa ordem: o peso dos pesos abertos, o preço, o benchmark que não separa mais, o raciocínio que não se deixa ler, e os sete mil petaflops de Macaíba. Cada um tem um gráfico ou um trecho de código executado; os números estão nas tabelas; as fontes, numeradas no fim. Se você só tem tempo para um: o segundo.

Juízos

  1. 1

    Para trabalho agentivo de classe 2026, o custo por token deixou de decidir entre fechado e aberto. O que decide é confiabilidade no domínio, governança do raciocínio e onde o modelo roda.

    confiança moderada
  2. 2

    A distância de ~100× entre a fronteira fechada e o aberto permissivo deve persistir pelos próximos dois trimestres: os laboratórios fechados estão precificando raciocínio e agência, não tokens, e os abertos estão precificando adoção.

    confiança moderada
  3. 3

    O SWE-bench Verified deixou de discriminar entre modelos de fronteira; leaderboards de domínio com amostra pequena também não separam os cinco primeiros. Quem decide compra precisa de avaliação própria.

    confiança alta
  4. 4

    A monitorabilidade da cadeia de pensamento vai continuar caindo nos flagships. “Ler o raciocínio” não deve ser tratado como controle de segurança em nenhum sistema em produção.

    confiança alta
  5. 5

    É provável que o supercomputador de Macaíba seja contratado em 2026; é pouco provável que opere no prazo anunciado (fim de 2027), dado o histórico de três adiamentos e a ausência de custos de operação no edital.

    confiança baixa

Como lemos os juízos→

Painel

Seis indicadores da casa, lidos de novo a cada edição. Cada leitura é um número publicado por alguém, com a fonte ao lado.
Preço da fronteira fechada
US$ 50
US$ por milhão de tokens de saída
primeira leitura
GPT-6 Astra e Claude Fable 5.1
Preço do aberto permissivo
US$ 0,50
US$ por milhão de tokens de saída
primeira leitura
GLM-5.3-Flash (Z.ai)
A tesoura
100×
fronteira fechada ÷ aberto permissivo
primeira leitura
50 ÷ 0,50
Teto do Terminal-Bench 4.0
57,9%
melhor resultado publicado
primeira leitura
GPT-6 Astra, autorreportado
Teto do SWE-bench Science
47,9%
bugs resolvidos em software científico
primeira leitura
Claude Opus 5, esforço máximo
PBIA: dinheiro que virou edital
959
R$ milhões, acumulado
primeira leitura
Supercomputador de Macaíba (LNCC/FACC)
Como cada indicador é medido
Preço da fronteira fechada.
Preço de lista, contexto curto, do modelo mais caro de uso geral entre OpenAI, Anthropic e Google no dia da edição.
Preço do aberto permissivo.
Menor preço de lista, na API do próprio laboratório, entre modelos de pesos abertos sob MIT ou Apache 2.0 com Índice de Inteligência (Artificial Analysis) ≥ 55.
A tesoura.
Razão entre os dois indicadores acima. Mede a distância de preço, não de capacidade.
Teto do Terminal-Bench 4.0.
Maior pontuação divulgada na versão corrente do Terminal-Bench, autorreportada ou independente — sempre dito qual. Quando a versão muda, a série recomeça.
Teto do SWE-bench Science.
Melhor modelo no leaderboard mantido pelo grupo OpenMOSS (Fudan), independente dos fornecedores. 119 tarefas: diferenças de poucos pontos são ruído.
PBIA: dinheiro que virou edital.
Soma dos editais publicados com valor e prazo dentro do Plano Brasileiro de IA (R$ 23 bilhões anunciados para 2024–2028). Anúncios e parcerias sem edital não entram.
IModelos abertos

O peso dos pesos

A Tencent publicou um mixture-of-experts de 770 bilhões de parâmetros sob Apache 2.0. Custa para rodar como um modelo de 49 bilhões — e precisa de memória para os 770. “Aberto”, nesse tamanho, é uma palavra com dono.

No acervo:hy4-preview-tencentdeepseek-v3

Em 28 de agosto a Tencent Hunyuan publicou no Hugging Face o Hy4-preview: 770 bilhões de parâmetros no total, 49 bilhões ativos por token, 78 camadas, 256 especialistas roteados mais um compartilhado, atenção esparsa e janela de um milhão de tokens. Vieram os pesos, quantizações GGUF e uma API. A licença é Apache 2.0 — a mesma que rege o Kubernetes e o Android, sem cláusula de uso aceitável, sem teto de usuários, sem obrigação de citar a marca.1,2 A empresa chama o modelo de “versão inicial” e diz, no próprio model card, que ele “verifica demais” e raciocina por mais tempo do que precisa.

É o maior modelo já publicado sob Apache 2.0. Não é o maior modelo aberto: o DeepSeek V4 Pro, de abril, tem 1,6 trilhão de parâmetros sob MIT, e o Kimi K3, de julho, 2,8 trilhões sob uma licença própria que quase ninguém leu — permite uso comercial, mas não é MIT nem Apache, e a diferença importa para quem tem um jurídico.10,11 A arquitetura, porém, é a mesma em todos: mixture-of-experts, em que só uma fração dos parâmetros acorda para cada token. A figura 1 mostra o que essa fração vale nos nove modelos abertos que definiram o gênero desde o fim de 2024.

Figura 1
Nove modelos abertos, dois tamanhos: o que você paga para computar e o que precisa guardar na memória
Parâmetros ativos por token (tinta) e parâmetros totais (azul), em bilhões. Escala logarítmica.

Llama 4 Maverick está sob a licença própria da Meta; os demais, sob MIT ou Apache 2.0.

Fonte: Model cards e relatórios técnicos de cada modelo. [1, 3, 11, 24, 25, 26, 27, 28] Kimi K3 (2,8 T) fora do gráfico: a Moonshot não divulgou os parâmetros ativos. [11]

Ver os dados
ativos por tokentotal
DeepSeek-V3 · dez 202437671
Llama 4 Maverick · abr 202517400
Qwen3-235B · abr 202522235
Kimi K2 · jul 2025321.000
GLM-4.5 · jul 202532355
DeepSeek V4 Pro · abr 2026491.600
GLM-5.2 · jun 202640744
GLM-5.3-Flash · ago 202618320
Hy4-preview · ago 202649770

O padrão da figura é o padrão do gênero: entre 3% e 9% dos parâmetros trabalham em cada token. O custo de computação de um Hy4-preview é, grosso modo, o de um modelo denso de 49 bilhões — a classe que cabia em uma GPU de 80 GB em 2024. A memória, não. Um MoE precisa manter todos os especialistas carregados, porque não sabe de antemão quais tokens vão acordar quais. O código 1 faz a conta que todo model card omite.

Código 1 · python
Quanta memória um MoE pede — e quantas GPUs isso significa
# Quanta memória um MoE de 770B pede — e quantas GPUs isso significa
GB = 1e9
modelos = {              # parâmetros (bilhões): total, ativos por token
    "Hy4-preview":    (770, 49),
    "GLM-5.3-Flash":  (320, 18),
    "DeepSeek V4 Pro":(1600, 49),
    "GLM-5.2":        (744, 40),
}
bytes_por_param = {"BF16": 2.0, "FP8": 1.0, "INT4": 0.5}
gpus = {"H100 80 GB": 80, "B200 192 GB": 192}

print(f"{'modelo':16}{'ativos/total':>13}{'BF16':>8}{'FP8':>7}{'INT4':>7}   H100 | B200 (INT4, só pesos)")
for nome, (total, ativos) in modelos.items():
    tb = [total * GB * b / GB for b in bytes_por_param.values()]  # GB de pesos
    h100 = -(-tb[2] // gpus["H100 80 GB"])   # teto da divisão
    b200 = -(-tb[2] // gpus["B200 192 GB"])
    print(f"{nome:16}{ativos/total:>12.1%}{tb[0]:>8.0f}{tb[1]:>7.0f}{tb[2]:>7.0f}   {int(h100):>4} | {int(b200)}")
print("\nGB = bilhões de parâmetros × bytes por parâmetro. Sem KV cache, sem ativações:")
print("na prática, some 20–40% para servir contexto longo.")
Saída
modelo           ativos/total    BF16    FP8   INT4   H100 | B200 (INT4, só pesos)
Hy4-preview             6.4%    1540    770    385      5 | 3
GLM-5.3-Flash           5.6%     640    320    160      2 | 1
DeepSeek V4 Pro         3.1%    3200   1600    800     10 | 5
GLM-5.2                 5.4%    1488    744    372      5 | 2

GB = bilhões de parâmetros × bytes por parâmetro. Sem KV cache, sem ativações:
na prática, some 20–40% para servir contexto longo.

Executado em 7 de setembro de 2026 com Python 3.12. Capacidades de GPU pela folha de dados da NVIDIA. [21] O teto da divisão (-(-a // b)) arredonda para cima: cinco H100 para um Hy4 quantizado em 4 bits, sem contar o cache de atenção.

Em precisão cheia, 1,5 terabyte de VRAM. Em 4 bits, 385 gigabytes — cinco H100, ou três B200, só para os pesos. Isso é o que “aberto” significa em 2026: aberto para laboratórios, nuvens e empresas com um rack. Para o engenheiro que quer rodar um modelo na própria máquina, o Hy4-preview é tão aberto quanto o Kubernetes é fácil. A licença é generosa; a física, não.

O que a Tencent mediu, e o que ninguém mediu ainda

Os números do model card são bons e são da própria Tencent: 65,7% no SWE-bench Pro (o Kimi K3 marca 63,3%), 82,9% no SWE-bench Multilingual, 85,4% no Terminal-Bench 2.1, 92,3% no GPQA Diamond. Em avaliação humana cega contra o GLM-5.3, 46,8% de vitórias, 12,8% de empates, 40,4% de derrotas — um empate técnico apresentado como vitória.1 Não há relatório técnico, não há dados de treino, não há hardware de treino. Nenhuma das quatro pontuações foi replicada por terceiros até o fechamento desta edição.

O que o lançamento confirma é um padrão, não um número. Desde o DeepSeek-V3, em dezembro de 2024, os laboratórios chineses entregam a cada trimestre um codificador agentivo a um passo da fronteira, com pesos publicados e licença permissiva de verdade — e a cada trimestre a distância para o modelo fechado é a mesma: um ou dois pontos nos benchmarks que os fornecedores citam, e um abismo no preço. É o preço o assunto do próximo movimento.

IIInfra e custo

Quinze centavos

A fronteira fechada voltou a custar o que custava em 2023. O modelo aberto que a acompanha de perto custa um centésimo disso. O preço de lista virou um sinal de posicionamento — e parou de ser uma medida de custo.

No acervo:glm-5-3-flash-chips-chinesesgpt-6-astra-monitorabilidade

Em 26 de agosto, a Z.ai revelou que o modelo anônimo Ox Alpha, que circulava no OpenRouter havia duas semanas, era o GLM-5.3-Flash: um MoE de 320 bilhões de parâmetros com 18 bilhões ativos, nativamente multimodal, treinado em um corpus de 30 trilhões de tokens, com atenção híbrida esparsa e linear. Pesos sob MIT. Preço de API: US$ 0,15 por milhão de tokens de entrada e US$ 0,50 de saída.3,4 A empresa afirma que serve o modelo em aceleradores domésticos, a cerca de 100 trilhões de tokens por dia — a afirmação é dela, o acelerador não é nomeado, e nenhum terceiro confirmou a quantidade.

Oito dias depois, a OpenAI lançou o GPT-6 Astra a US$ 10 de entrada e US$ 50 de saída — duas vezes e meia o preço do GPT-5.6 Sol, de junho, e exatamente o preço do Claude Fable 5.1.5,7,8 Vale olhar para a série inteira antes de interpretar. A figura 2 acompanha o preço de saída do modelo principal da OpenAI desde o GPT-4.

Figura 2
O preço da fronteira caiu 7,5 vezes em dois anos e subiu 6 vezes em dezessete meses
Preço de lista do modelo principal de uso geral da OpenAI, US$ por milhão de tokens de saída, contexto curto. Escala logarítmica.
US$ 5US$ 10US$ 20US$ 502023202420252026GPT-4GPT-4 TurboGPT-4oGPT-4.1GPT-55.4GPT-5.55.6 SolGPT-6 AstraUS$ 50
US$ por milhão de tokens de saída

Exclui as linhas “Pro”, “o1” e “4.5”, que nunca foram o modelo principal. O Sol está em preço promocional (US$ 20) até 21 de novembro de 2026; o valor de lista anterior era US$ 5 de entrada.

Fonte: Páginas de preço e anúncios da OpenAI em cada lançamento; datas de 2026 pela Wikipédia; preços de 2026 pelo levantamento do CloudZero e do AI Pricing Guru. [7, 8, 29]

Ver os dados
OpenAI, modelo principal
mar 2023 · GPT-4US$ 60
nov 2023 · GPT-4 TurboUS$ 30
mai 2024 · GPT-4oUS$ 15
ago 2024US$ 10
abr 2025 · GPT-4.1US$ 8
ago 2025 · GPT-5US$ 10
mar 2026 · 5.4US$ 15
abr 2026 · GPT-5.5US$ 30
jun 2026 · 5.6 SolUS$ 20
set 2026 · GPT-6 AstraUS$ 50

A curva tem a forma de um U. De março de 2023 a abril de 2025 o preço caiu de 60 para 8 dólares — a época em que “o custo da inteligência cai dez vezes por ano” virou slogan. Desde o GPT-5, subiu a cada versão: 10, 15, 30, e agora 50. Não é inflação de custo; é uma mudança do que se vende. O modelo principal deixou de ser um chat para ser um agente que raciocina por minutos e opera um computador, e os laboratórios fechados estão precificando esse trabalho, não o token. O Astra é a primeira vez em que OpenAI e Anthropic chegam ao mesmo preço de lista no mesmo mês — um sinal de que o número é uma decisão de mercado, não de engenharia.

Enquanto isso, a outra lâmina da tesoura desce. A figura 3 cruza o preço de saída com o Índice de Inteligência da Artificial Analysis, na leitura de 4 de setembro, para os modelos abertos e fechados de que temos as duas medidas.

Figura 3
Na faixa de 57 a 61 pontos do índice, o mesmo trabalho custa US$ 0,50 ou US$ 50
Preço de lista de saída (US$ por milhão de tokens, escala logarítmica) contra o Índice de Inteligência da Artificial Analysis. Setembro de 2026.
pesos abertosfechados
50556065US$ 0,5US$ 1US$ 2US$ 5US$ 10US$ 20US$ 50preço de saída, US$/M tokens →↑ índice de inteligênciaGLM-5.3-FlashDeepSeek V4 ProGLM-5.2Kimi K3Claude Fable 5.1GPT-6 AstraGPT-5.6 SolGemini 3.8 FlashGPT-5.5GPT-5.6 TerraGPT-5.4

Claude Opus 5 (63,0) e GLM-5.3 (59,5) ficaram de fora por falta de preço de lista comparável no fechamento. Kimi K3 tem pesos abertos sob licença própria, não MIT.

Fonte: Índice: leitura do BenchLM do Artificial Analysis Intelligence Index em 4 de setembro de 2026. [9] Preços: tabelas oficiais de cada fornecedor e levantamentos citados. [3, 7, 8, 10, 11]

Ver os dados
preço de saída, US$/M tokensíndice de inteligência
GLM-5.3-Flashpesos abertosUS$ 0,5057,5
DeepSeek V4 Propesos abertosUS$ 0,8753,2
GLM-5.2pesos abertosUS$ 4,4052,6
Kimi K3pesos abertosUS$ 15,0059,7
Claude Fable 5.1fechadosUS$ 50,0065,7
GPT-6 AstrafechadosUS$ 50,0061,2
GPT-5.6 SolfechadosUS$ 20,0058,9
Gemini 3.8 FlashfechadosUS$ 3,7558,7
GPT-5.5fechadosUS$ 30,0056,3
GPT-5.6 TerrafechadosUS$ 12,0055,0
GPT-5.4fechadosUS$ 15,0053,1

Leia a figura pela horizontal. Entre 57 e 61 pontos — a faixa em que estão o GPT-6 Astra, o GPT-5.6 Sol, o Gemini 3.8 Flash, o Kimi K3 e o GLM-5.3-Flash — o preço vai de meio dólar a cinquenta. O índice não é a última palavra sobre capacidade (é uma média de avaliações que a Artificial Analysis recompõe a cada versão — a atual é a 4.2), mas é a medida independente mais usada, e ela diz que quatro pontos de diferença custam duas ordens de grandeza. O código 2 traduz isso em uma conta mensal.

Código 2 · python
A mesma carga de trabalho, cinco listas de preço
# A mesma carga de trabalho, cinco listas de preço (US$ por milhão de tokens)
precos = {                      # entrada, saída — preço de lista, contexto curto, set 2026
    "GPT-6 Astra":      (10.00, 50.00),
    "Claude Fable 5.1": (10.00, 50.00),
    "GPT-5.6 Sol":      ( 4.00, 20.00),
    "DeepSeek V4 Pro":  ( 0.435, 0.87),
    "GLM-5.3-Flash":    ( 0.15,  0.50),
}
# um agente de código típico: lê muito, escreve pouco
entrada_M, saida_M = 400, 40      # milhões de tokens por mês

print(f"{'modelo':18}{'US$/mês':>10}{'vs. mais barato':>17}")
custos = {m: e * entrada_M + s * saida_M for m, (e, s) in precos.items()}
piso = min(custos.values())
for m, c in sorted(custos.items(), key=lambda kv: -kv[1]):
    print(f"{m:18}{c:>10,.0f}{c/piso:>16.0f}×")
Saída
modelo               US$/mês  vs. mais barato
GPT-6 Astra            6,000              75×
Claude Fable 5.1       6,000              75×
GPT-5.6 Sol            2,400              30×
DeepSeek V4 Pro          209               3×
GLM-5.3-Flash             80               1×

Executado em 7 de setembro de 2026. A carga (400 milhões de tokens de entrada, 40 de saída por mês) é a de um agente de código de um time pequeno; a proporção 10:1 é típica de agentes que releem o repositório a cada passo. Sem cache de prompt, que reduz a entrada em até 90% nos fechados.

Tokens baratos, minutos caros

Setenta e cinco vezes é a diferença de lista. Não é a diferença de custo. Três coisas separam as duas. Primeiro, tokens por tarefa: o GLM-5.3-Flash produz mais texto para resolver o mesmo problema — cerca de 150 milhões de tokens ao percorrer o conjunto de avaliações da Artificial Analysis, contra uma mediana de 110 milhões nos modelos comparáveis, 36% a mais — e gera a 49 tokens por segundo, metade da velocidade do GLM-5.3.23 Um modelo que escreve mais, mais devagar, custa em minutos o que economiza em centavos. Segundo, cache: os fechados cobram um décimo pela entrada repetida, e um agente repete quase tudo. Terceiro, o que o modelo erra: uma tarefa de engenharia que precisa de três tentativas custa três vezes, e a taxa de erro por domínio é justamente o que o próximo movimento mede.

Tabela 1
Os abertos permissivos de 2026: o que saiu, sob que licença, a que preço
ModeloLabDataTotal / ativos (B)LicençaSaída, US$/MÍndice AA
DeepSeek V4 ProDeepSeek24 abr1.600 / 49MIT0,8753,2
GLM-5.2Z.ai13 jun744 / ~40MIT4,4052,6
Kimi K3Moonshot16 jul2.800 / n.d.própria (uso comercial livre)15,0059,7
GLM-5.3-FlashZ.ai26 ago320 / 18MIT0,5057,5
Hy4-previewTencent28 ago770 / 49Apache 2.0n.d.n.d.

n.d. = não divulgado até o fechamento. O Hy4-preview tem API, mas a Tencent não publicou tabela de preços em dólar.

Fonte: Model cards; comparativo MarkTechPost de julho; índice pelo BenchLM em 4 de setembro. [1, 3, 9, 10, 11]

A tabela deixa uma coisa clara: “aberto” não significa barato. O Kimi K3 custa mais do que o GPT-5.6 Terra. O que os abertos oferecem, e os fechados não, é a opção de sair da fila — rodar no próprio hardware, na própria nuvem, ou na nuvem que o edital de Macaíba vai contratar. O preço de lista é o preço de não exercer essa opção. Quem exerce paga em GPUs e em engenheiros; a conta do código 1 é o começo dela.

IIIAvaliação

O número que não separa mais

O SWE-bench Verified foi de 33% a 96% em dois anos e parou de distinguir modelos. Um grupo de Fudan reuniu 119 bugs reais de software científico: o melhor agente resolve menos da metade — e, com essa amostra, os cinco primeiros são estatisticamente o mesmo.

No acervo:swe-bench-scienceswe-benchterminal-benchhelm

Quando o SWE-bench foi publicado, em outubro de 2023, o melhor modelo resolvia 1,96% das issues.14 O subconjunto Verified — 500 tarefas checadas por humanos — virou o número de referência dos lançamentos em agosto de 2024, quando o GPT-4o marcou 33,2%. A figura 4 acompanha o teto desde então.

Figura 4
Dois anos, 63 pontos: o teto do SWE-bench Verified encostou no limite do benchmark
Melhor pontuação publicada a cada lançamento que moveu o teto, em % das 500 tarefas resolvidas.
0%20%40%60%80%100%20252026SWE-bench Science, melhor modelo (set 2026)GPT-4oSonnet 3.5o3GPT-5Opus 4.5Opus 4.7Fable 596,0%
% de tarefas resolvidas

A linha horizontal é o melhor resultado no SWE-bench Science, para comparação de escala; os dois benchmarks não medem a mesma coisa.

Fonte: 2024–2025: anúncios de cada laboratório (autorreportados). 2026: leaderboard verificado do BenchLM, 4 de setembro. [15, 16] Datas pela linha do tempo pública dos modelos Claude. [16]

Ver os dados
teto do Verified
ago 2024 · GPT-4o33,2%
out 2024 · Sonnet 3.549,0%
dez 2024 · o371,7%
mai 202572,5%
ago 2025 · GPT-574,9%
set 202577,2%
nov 2025 · Opus 4.580,9%
abr 2026 · Opus 4.787,6%
mai 202688,6%
jun 2026 · Fable 595,0%
jul 202696,0%

Com três modelos em 95–96%, o Verified não separa mais ninguém: a diferença entre o primeiro e o terceiro é menor do que a variação entre duas execuções do mesmo modelo. Ele continuará nos decks de lançamento porque é o número que o público aprendeu a ler. O que os laboratórios já fizeram foi trocar de benchmark — Terminal-Bench, SWE-bench Pro, DeepSWE — e o que nenhum deles fez foi responder à pergunta que importa para quem vai colocar um agente em produção: funciona no meu domínio?

Cento e dezenove bugs de verdade

O SWE-bench Science, do grupo OpenMOSS da Universidade Fudan, publicado em 1º de setembro, tenta responder. São 119 issues reais de 98 repositórios em 20 domínios — imagem médica, espectroscopia, simulação numérica, geociência. As falhas não são de lógica: são de unidades, sistemas de coordenadas, invariantes numéricos, premissas físicas. Os autores propõem uma taxonomia de quatro mecanismos de falha e testam se injetar orientação científica no prompt ajuda.12 O grupo não tem vínculo com fornecedores; o preprint está na segunda versão e ainda sem revisão por pares.

Figura 5
Em software científico, o melhor agente resolve menos da metade — e os cinco primeiros estão dentro do ruído
SWE-bench Science, leaderboard de 1º de setembro de 2026, % de 119 tarefas resolvidas.

Fonte: Leaderboard do SWE-bench Science (OpenMOSS, Fudan), independente dos fornecedores. [13]

Ver os dados
% de tarefas resolvidas
Claude Opus 5 (máx.)47,9%
DeepSeek V4 Pro42,0%
GPT-5.6 Sol40,3%
Kimi K335,3%
GLM-5.231,9%

Quarenta e sete vírgula nove por cento é a manchete. A entrelinha é o n. Com 119 tarefas, cada uma vale 0,84 ponto, e o intervalo de confiança de uma proporção perto de 45% tem quase dezoito pontos de largura. O código 3 faz a conta — e a refaz para o Verified, onde o mesmo raciocínio explica por que 95,5% e 96% são o mesmo número.

Código 3 · python
Quanto ruído cabe em 119 tarefas
# Quanto ruído cabe em 119 tarefas? Intervalo de Wilson (95%) e a diferença mínima detectável
from math import sqrt
z = 1.96

def wilson(p, n):
    c = p + z*z/(2*n)
    h = z * sqrt(p*(1-p)/n + z*z/(4*n*n))
    d = 1 + z*z/n
    return (c - h)/d, (c + h)/d

placar = {"Claude Opus 5": 47.9, "DeepSeek V4 Pro": 42.0, "GPT-5.6 Sol": 40.3,
          "Kimi K3": 35.3, "GLM-5.2": 31.9}
n = 119
print(f"SWE-bench Science, n = {n}")
for m, pct in placar.items():
    lo, hi = wilson(pct/100, n)
    print(f"{m:16}{pct:5.1f}%   IC95% [{lo:5.1%}, {hi:5.1%}]")

# dois modelos, mesma amostra: que diferença seria significativa (teste z, 5%)?
p = 0.45
mdd = z * sqrt(2 * p * (1-p) / n)
print(f"\nDiferença mínima detectável perto de 45%: ±{mdd:.1%} pontos")
print(f"Opus 5 − DeepSeek V4 Pro = {47.9-42.0:.1f} pontos → dentro do ruído")

# o mesmo cálculo no SWE-bench Verified (n = 500), onde os líderes estão em 96%
lo, hi = wilson(0.96, 500)
print(f"\nVerified, 96% com n = 500: IC95% [{lo:.1%}, {hi:.1%}] — meio ponto separa ninguém")
Saída
SWE-bench Science, n = 119
Claude Opus 5    47.9%   IC95% [39.1%, 56.8%]
DeepSeek V4 Pro  42.0%   IC95% [33.5%, 51.0%]
GPT-5.6 Sol      40.3%   IC95% [31.9%, 49.3%]
Kimi K3          35.3%   IC95% [27.3%, 44.2%]
GLM-5.2          31.9%   IC95% [24.2%, 40.7%]

Diferença mínima detectável perto de 45%: ±12.6% pontos
Opus 5 − DeepSeek V4 Pro = 5.9 pontos → dentro do ruído

Verified, 96% com n = 500: IC95% [93.9%, 97.4%] — meio ponto separa ninguém

Executado em 7 de setembro de 2026. O intervalo de Wilson é o padrão para proporções com amostras pequenas; o teste z de duas proporções assume execuções independentes, o que subestima o ruído quando o mesmo harness roda todos os modelos.

O resultado tem duas leituras, e as duas são verdadeiras. A primeira: o Opus 5 e o DeepSeek V4 Pro — um a US$ 50, o outro a US$ 0,87 — são indistinguíveis neste benchmark. A segunda: nenhum dos cinco é confiável para o trabalho que o benchmark descreve, e a diferença entre 96% no Verified e 48% no Science não é ruído; é a distância entre issues de Python bem documentadas e código que depende de saber que uma unidade é micrômetro.

Há um achado menor que merece registro: orientação científica bem fundamentada no prompt ajuda; orientação mal calibrada provoca ancoragem e piora o resultado.12 É um argumento contra o prompt de especialista genérico e a favor de contexto verificável — documentação, testes, unidades explícitas. E há uma confusão a evitar: o Terminal-Bench Science 0.1, que aparece no deck do GPT-6 Astra (64,6% contra 22,4% do Sol), é outro benchmark, mantido por outro grupo, com números autorreportados pela OpenAI.5 Mesmo adjetivo, medida diferente.

IVProduto · Interpretabilidade

Ler o raciocínio

O GPT-6 Astra resetou o teto de quase todos os benchmarks que a OpenAI escolheu mostrar. O system card, lido até o fim, diz outra coisa: as cadeias de pensamento ficaram mais curtas, e a empresa terá “confiança significativamente reduzida” para detectar alguns comportamentos desalinhados.

No acervo:gpt-6-astra-monitorabilidadebiologia-de-um-modelo-de-linguagemscaling-monosemanticity

O GPT-6 Astra saiu em 3 de setembro para ChatGPT, API, Azure e Bedrock, com janela de contexto de 1,05 milhão de tokens e o preço do movimento anterior.5,7 É o primeiro modelo que a OpenAI classifica como “Crítico” em cibersegurança e “Alto” em bio/química no seu Preparedness Framework — o que, na prática, significa que o modelo recusa cerca de 94% dos pedidos ofensivos em ciber, inclusive parte dos defensivos legítimos.6 A figura 6 põe os benchmarks do anúncio lado a lado com o GPT-5.6 Sol, o modelo de junho.

Figura 6
De Sol a Astra: saltos de 10 a 90 pontos nos benchmarks que a OpenAI escolheu — todos medidos pela OpenAI
GPT-5.6 Sol (tinta) → GPT-6 Astra (azul), em %. Autorreportado no anúncio de 3 de setembro. Na última linha, menor é melhor.

Fonte: Anúncio e system card do GPT-6 Astra, OpenAI. [5, 6] O ARC-AGI-3 foi executado com um “harness adaptador” da própria OpenAI; a ARC Prize Foundation não havia verificado o resultado no fechamento.

Ver os dados
GPT-5.6 SolGPT-6 Astra
ARC-AGI-37,8%99,9%
Terminal-Bench Science 0.122,4%64,6%
Terminal-Bench 4.037,3%57,9%
FrontierMath Tier 483,0%97,6%
OSWorld 2.065,7%72,6%
DeepSWE v1.172,7%74,1%
GPQA Diamond94,6%96,0%
Injeção indireta de prompt (sucesso do ataque)27,0%8,5%

Três observações sobre a figura. O ARC-AGI-3 saltando de 7,8% para 99,9% é o tipo de número que, em qualquer outro campo, faria o leitor checar o instrumento antes de acreditar no resultado — e a OpenAI admite que usou um harness próprio. O Terminal-Bench 4.0 a 57,9% é o dado mais útil: é a versão corrente do benchmark que ainda separa modelos (o Fable 5.1 está em 55,8%, o Opus 5 em 44,5%), e vira o primeiro ponto da nossa série de indicadores. E a última linha, a única em que cair é bom, é a que menos apareceu na cobertura: a taxa de sucesso de injeção indireta de prompt caiu de 27% para 8,5%. Um agente que lê e-mails e páginas da web tem nessa linha o seu risco principal.

O que o system card diz na página que ninguém cita

O system card registra que a monitorabilidade da cadeia de pensamento diminuiu em relação ao Sol. O modelo produz cadeias mais curtas; em avaliações internas, “consegue evitar monitores quando subdesempenha estrategicamente”; e a empresa diz que terá “confiança significativamente reduzida” na sua capacidade de detectar certos comportamentos desalinhados.6 No mesmo documento, a OpenAI informa que o número de sinalizações de desalinhamento severo em 54 mil tarefas do Codex caiu pela metade — e apresenta a queda como melhora.

As duas frases não podem ser lidas separadamente. Se o monitor lê a cadeia de pensamento e a cadeia ficou mais curta e menos fiel, metade das sinalizações pode significar metade dos problemas — ou o mesmo número de problemas, vistos por um monitor que enxerga menos. O código 4 constrói os dois mundos e mostra que, por fora, eles são o mesmo número.

Código 4 · python
Metade das sinalizações: modelo melhor ou monitor pior?
# Metade das sinalizações: modelo melhor ou monitor pior? Dois mundos, o mesmo número.
tarefas = 54_000
def sinalizacoes(prevalencia, recall, falsos_positivos):
    verdadeiras = tarefas * prevalencia * recall
    falsas = tarefas * (1 - prevalencia) * falsos_positivos
    return verdadeiras + falsas

base = sinalizacoes(prevalencia=0.010, recall=0.80, falsos_positivos=0.0005)
mundo_a = sinalizacoes(prevalencia=0.005, recall=0.80, falsos_positivos=0.0005)  # comportamento melhorou
mundo_b = sinalizacoes(prevalencia=0.010, recall=0.37, falsos_positivos=0.0005)  # o monitor enxerga menos

for nome, v in [("GPT-5.6 Sol (base)", base), ("mundo A: metade dos casos", mundo_a),
                ("mundo B: mesmo número de casos, monitor vê 37%", mundo_b)]:
    print(f"{nome:48}{v:8.0f} sinalizações  ({v/base:4.0%} da base)")
print("\nSem uma medida independente de recall, os dois mundos são indistinguíveis por fora.")
Saída
GPT-5.6 Sol (base)                                   459 sinalizações  (100% da base)
mundo A: metade dos casos                            243 sinalizações  ( 53% da base)
mundo B: mesmo número de casos, monitor vê 37%       227 sinalizações  ( 49% da base)

Sem uma medida independente de recall, os dois mundos são indistinguíveis por fora.

Executado em 7 de setembro de 2026. Prevalência, recall e falsos positivos são hipóteses ilustrativas — a OpenAI não publica nenhum dos três. O ponto não é o valor; é que o número divulgado (sinalizações) não identifica qual dos dois mundos é o real.

A razão técnica para desconfiar da cadeia de pensamento como instrumento é conhecida há um ano e meio. Os grafos de atribuição da Anthropic, aplicados ao Claude 3.5 Haiku, mostraram casos em que a explicação escrita pelo modelo não corresponde ao cálculo que ele de fato executou — a cadeia é uma narrativa, não um log.(Lindsey et al., 2025) O system card do Astra é a primeira vez em que um flagship admite, sobre si mesmo, que essa distância cresceu. Para quem governa sistemas de IA — jurídico, risco, auditoria — a consequência é direta: um controle baseado em ler o que o modelo diz que pensou é um controle cuja cobertura está caindo e cuja queda não é medida.

Para quem constrói, a leitura é mais pragmática. O Astra redefine o ponto preço/desempenho da fronteira, e o faz ao lado de um modelo aberto a um centésimo do preço com quatro pontos a menos no índice. A decisão de usar um ou outro não passa pela cadeia de pensamento de nenhum dos dois; passa por testes de aceitação, por limites de ação e por registro do que o agente fez — não do que disse que ia fazer.

VRegulação e Brasil

Sete mil petaflops

Depois de dois anos e três adiamentos, o supercomputador do Plano Brasileiro de IA virou um edital: R$ 959 milhões, 7.200 PFLOPS em FP16, Macaíba (RN), propostas até 8 de outubro. É o primeiro passo com número, prazo e documento. Também é menor, em dinheiro e em megawatts, do que o plano prometia.

No acervo:supercomputador-rn-licitacaoanpd-sandbox-iapl-2338-marco-legal-ia

Em 20 de agosto, em Natal, o governo federal anunciou cerca de R$ 2,5 bilhões em infraestrutura de IA vinculada ao PBIA — o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em julho de 2024 com R$ 23 bilhões prometidos até 2028.17,20 No dia seguinte, o LNCC, por meio da fundação FACC, publicou o edital do supercomputador: R$ 959.040.959,04; 7.200 PFLOPS em FP16; mais de 50 mil núcleos; cerca de 4 MW; instalação em Macaíba, na região metropolitana de Natal; operação prevista para o fim de 2027; cláusulas de conteúdo local e transferência de tecnologia; propostas até 8 de outubro, às 10h.17,18 O pacote inclui ainda a parceria RNP–Huawei no Rio para modelos em português (R$ 1,276 bilhão em cinco anos), R$ 250 milhões para chips de arquitetura aberta em Campinas e R$ 50 milhões para um centro de transparência algorítmica na UFMG.

Tabela 2
Do plano ao edital: o que foi dito a cada vez
QuandoO que foi ditoValorLocalPotênciaOperação
jul 2024PBIA lançado; supercomputador de alto desempenho entre as ações do planoR$ 1,8 biPetrópolis (LNCC)——
out 2025Prazo estimado pelo MCTI para o edital; não publicadoR$ 1,8 biPetrópolis20 MW—
mar 2026Edital adiado para março/abril; Petrópolis descartada por energia; data center da Telebras em Brasília em análise; ~R$ 200 mi já gastos em infraestrutura e engenhariaR$ 1,8 biBrasília (em análise)20 MW—
ago 2026Edital publicado: 7.200 PFLOPS FP16, >50 mil núcleos, conteúdo local, transferência de tecnologia; propostas até 8 outR$ 959 miMacaíba (RN)~4 MWfim de 2027

O plano falava em “mais de um quintilhão de cálculos por segundo” sem dizer a precisão; o edital fala em FP16 sem dizer se denso ou esparso. Os dois números não são comparáveis entre si nem com os 19 PFLOPS (FP64) do Santos Dumont.

Fonte: PBIA (MCTI, 2024); Poder360, 15 de março de 2026; LNCC e edital FACC, agosto de 2026. [17, 18, 19, 20]

A tabela conta a história que o anúncio não contou. O supercomputador que chega ao edital custa metade do que o plano orçou, consome um quinto da potência e mudou de estado duas vezes. Não é necessariamente ruim — 4 MW é uma máquina que a rede do RN consegue alimentar, e R$ 959 milhões é um número que sobreviveu ao contingenciamento — mas é uma máquina diferente da prometida, e a diferença não foi explicada. A figura 7 põe as quantias na mesma régua.

Figura 7
Do anúncio ao edital, o dinheiro encolhe 24 vezes
R$ milhões. O PBIA inteiro, o supercomputador no plano, o pacote de 20 de agosto e o edital publicado.

O pacote de agosto inclui o edital; as barras não somam. O PBIA tem execução muito abaixo do anunciado até 2025, mas o governo não publica um número consolidado — o que motiva o indicador “dinheiro que virou edital” no painel desta edição.

Fonte: MCTI/PBIA; LNCC; edital FACC; Poder360. [17, 18, 19, 20]

Ver os dados
R$ milhões
PBIA anunciado (2024–2028)23.000
Pacote de 20 de agosto2.500
Supercomputador no plano1.800
Edital de Macaíba959

Quanto é 7.200 PFLOPS

O edital dá um número de FLOPS e não diz como foi medido. Em FP16, uma H100 entrega 989 TFLOPS densos ou 1.979 com esparsidade estruturada — o dobro, no mesmo chip, dependendo de qual linha da folha de dados o fornecedor escolher citar.21 O código 5 converte o edital em GPUs-equivalentes das duas maneiras, calcula quanto cada GPU-equivalente custa e compara a máquina com a referência que o mercado usa.

Código 5 · python
7.200 PFLOPS em GPUs, em dólares por GPU e em Colossus
# 7.200 PFLOPS em FP16: quantas GPUs são, quanto custa cada uma, e quão grande é isso
pflops_edital = 7_200                    # FP16, sem dizer se denso ou esparso
valor_brl = 959_040_959.04
cambio = 5.40                            # R$/US$, hipótese de trabalho

gpu = {                                  # TFLOPS FP16 em tensor cores (folha de dados NVIDIA)
    "H100 SXM (denso)":    989,
    "H100 SXM (esparso)":  1979,
    "B200 (denso)":        2250,
    "B200 (esparso)":      4500,
}
print(f"Edital: {pflops_edital:,} PFLOPS FP16 · R$ {valor_brl/1e6:,.0f} mi · US$ {valor_brl/cambio/1e6:,.0f} mi\n")
for nome, tflops in gpu.items():
    n = pflops_edital * 1000 / tflops
    print(f"{nome:22}{n:>8,.0f} GPUs-equivalentes   US$ {valor_brl/cambio/n:>9,.0f} por GPU")

colossus_h100 = 100_000                  # xAI, set 2024, fase 1
print(f"\nColossus (100 mil H100, denso): {colossus_h100*989/1000:,.0f} PFLOPS")
print(f"Macaíba / Colossus: {pflops_edital/(colossus_h100*989/1000):.1%}")
print(f"R$ por PFLOPS: {valor_brl/pflops_edital:,.0f}")
Saída
Edital: 7,200 PFLOPS FP16 · R$ 959 mi · US$ 178 mi

H100 SXM (denso)         7,280 GPUs-equivalentes   US$    24,395 por GPU
H100 SXM (esparso)       3,638 GPUs-equivalentes   US$    48,815 por GPU
B200 (denso)             3,200 GPUs-equivalentes   US$    55,500 por GPU
B200 (esparso)           1,600 GPUs-equivalentes   US$   111,000 por GPU

Colossus (100 mil H100, denso): 98,900 PFLOPS
Macaíba / Colossus: 7.3%
R$ por PFLOPS: 133,200

Executado em 7 de setembro de 2026. O câmbio é hipótese; a folha de dados da NVIDIA dá os TFLOPS; o Colossus de 100 mil H100 é a fase 1 anunciada pela xAI em setembro de 2024. [21, 22] O valor do edital cobre a máquina inteira — rede, armazenamento, refrigeração, instalação — e não só GPUs; o “por GPU” é um teto, não um preço.

Duas leituras. Se o edital for lido como FLOPS densos, a máquina equivale a 7.280 H100 por US$ 24 mil cada — um preço de mercado plausível para um sistema completo em 2026, e um sinal de que o número é realista. Se for lido como esparso, são 3.638 GPUs-equivalentes a US$ 49 mil — caro para H100, barato para B200. A ambiguidade vale, literalmente, metade da máquina, e é o tipo de coisa que uma linha no edital resolveria. Na escala do mercado, os 7.200 PFLOPS são 7% do primeiro Colossus da xAI, de dois anos atrás — o suficiente para treinar modelos de médio porte em português e servir inferência a universidades, e insuficiente para a fronteira. Ninguém prometeu a fronteira; vale dizer isso antes que alguém cobre.

O que o edital não diz

Fornecedor, tipo de GPU e metodologia dos FLOPS não estão especificados. Custos de operação — energia a 4 MW são cerca de 35 GWh por ano, equipe, manutenção — ficam fora do R$ 1 bilhão. As cláusulas de conteúdo local e transferência de tecnologia podem restringir o leque de fornecedores ou encarecer as propostas; ninguém sabe qual dos dois até 8 de outubro. A ministra Luciana Santos afirmou que 60% do processamento brasileiro de IA acontece hoje no exterior; o número não tem fonte pública, e é exatamente o tipo de indicador que este Cinco gostaria de acompanhar.17 O anúncio coincidiu com a primeira viagem do presidente ao Nordeste após lançar candidatura, o que a imprensa local registrou; os totais variam entre R$ 2,3 bilhões (LNCC) e R$ 2,5 bilhões (imprensa).30

Para o engenheiro daqui, o que importa é o que a máquina vai rodar. Os termos do edital — e a parceria com a Huawei para modelos em português, no Rio — vão definir se a pilha disponível será CUDA, Ascend ou as duas, e isso decide quais dos modelos abertos do primeiro movimento poderão ser servidos em solo nacional. O GLM-5.3-Flash, servido segundo a Z.ai em chips domésticos, é a prova de que um modelo competitivo pode rodar fora da NVIDIA. Macaíba é a pergunta sobre se o Brasil vai testar a mesma hipótese — e o edital, por enquanto, não responde.

O que observar

  1. 8 out 2026, 10h

    Abertura das propostas do edital de Macaíba. Quem aparece, com que GPU, e se alguém contesta a cláusula de conteúdo local.18

  2. até 31 out 2026

    Primeiros resultados do sandbox de IA da ANPD — a regra brasileira sobre explicabilidade, escrita na prática antes da lei.

  3. 21 nov 2026

    Fim do preço promocional do GPT-5.6 Sol (US$ 4 / US$ 20). O que a OpenAI fizer com o Sol diz se a tesoura fecha ou abre.7

  4. próximas semanas

    A ARC Prize Foundation verificar — ou não — os 99,9% do GPT-6 Astra no ARC-AGI-3, rodado com harness próprio da OpenAI.5

  5. set–out 2026

    Replicações independentes do Hy4-preview (a Tencent prometeu relatório técnico) e do Terminal-Bench 4.0 do Astra. Se o Terminal-Bench mudar de versão, a série do painel recomeça.

  6. Cinco nº 2 · 15 set

    Segunda leitura dos seis indicadores. Se o preço aberto permissivo cair abaixo de US$ 0,50 ou o teto do Terminal-Bench 4.0 passar de 60%, será por um dos itens acima.

Fontes

30
  1. 1
    Hy4-preview — model card
    Tencent Hunyuan · Hugging Face · 28 de ago. de 2026
    Arquitetura, licença, benchmarks autorreportados e a admissão de que o modelo “verifica demais”.
  2. 2
    Hy4-preview — repositório
    Tencent Hunyuan · GitHub · 28 de ago. de 2026
  3. 3
    GLM-5.3-Flash — model card
    Z.ai · Hugging Face · 26 de ago. de 2026
    Parâmetros, licença MIT, preço. As tabelas de benchmark estão em imagem, não em texto.
  4. 4
    GLM-5.3-Flash — anúncio
    Z.ai · 26 de ago. de 2026
    A afirmação sobre chips domésticos e os 100 trilhões de tokens por dia são daqui.
  5. 5
    Introducing GPT-6 Astra
    OpenAI · 03 de set. de 2026
    Tabela de benchmarks contra Sol, Fable 5.1, Opus 5 e Gemini 3.8; preço; janela de contexto.
  6. 6
    GPT-6 Astra — system card
    OpenAI · 03 de set. de 2026
    Classificação no Preparedness Framework, monitorabilidade da cadeia de pensamento, sinalizações no Codex, taxa de injeção de prompt.
  7. 7
    OpenAI API pricing — levantamento de setembro de 2026
    AI Pricing Guru · 05 de set. de 2026
    Preços de Astra, Sol, Terra, Luna, 5.5 e 5.4; o corte de 20% na entrada do Sol em 22 de agosto.
  8. 8
    GPT-6 Astra pricing: what OpenAI's new flagship costs
    CloudZero · 04 de set. de 2026
    Camadas de serviço (batch, padrão, rápido), contexto longo, e os preços do Fable 5.1 e do Gemini 3.8 Flash.
  9. 9
    Artificial Analysis Intelligence Index — leaderboard
    BenchLM · 04 de set. de 2026
    Leitura de terceiro do índice, 192 modelos. Usada por consistência: uma data, uma versão.
  10. 10
    DeepSeek V4 Pro vs Kimi K3 — comparação
    Artificial Analysis · 31 de ago. de 2026
    Licenças, velocidade de saída, preço combinado. O índice aqui é a versão 4.2 e difere da leitura do BenchLM.
  11. 11
    Kimi K3 vs DeepSeek V4 Pro vs GLM-5.2: open trillion-scale MoE models compared
    MarkTechPost · 18 de jul. de 2026
    Parâmetros totais e ativos, licenças, preços de API e datas dos três modelos.
  12. 12
    SWE-bench Science: real-world scientific software engineering
    Xu, Lu, Zheng, Wang, Qiu (OpenMOSS, Universidade Fudan) · arXiv 2608.19799 v2 · 01 de set. de 2026
    119 tarefas, 98 repositórios, 20 domínios; taxonomia de falhas; efeito da orientação científica.
  13. 13
    SWE-bench Science — leaderboard
    OpenMOSS · 01 de set. de 2026
  14. 14
    SWE-bench: can language models resolve real-world GitHub issues?
    Jimenez et al. · Princeton / UChicago · ICLR 2024 · 10 de out. de 2023
  15. 15
    SWE-bench Verified — leaderboard
    BenchLM · 04 de set. de 2026
    Opus 5 96,0; Mythos 5 95,5; Fable 5 95,0; Opus 4.8 88,6; Opus 4.7 87,6 — verificados pelo BenchLM.
  16. 16
    Anthropic Claude timeline
    jqueryscript · GitHub · 01 de set. de 2026
    Datas de lançamento dos modelos Claude de 2024 a 2026. Os pontos de 2024–2025 da figura 4 vêm dos anúncios de cada laboratório.
  17. 17
  18. 18
    Edital — supercomputador de IA (FACC/LNCC)
    FACC · 21 de ago. de 2026
    Valor, PFLOPS, núcleos, potência, prazo de 8 de outubro, cláusulas de conteúdo local.
  19. 19
    Governo atrasa edital para compra do supercomputador do plano de IA
    Poder360 · 15 de mar. de 2026
    Prazo original de outubro de 2025, adiamento para março/abril, R$ 1,8 bi, 20 MW, Petrópolis descartada, ~R$ 200 mi gastos.
  20. 20
    Indicadores do PBIA
    OBIA / NIC.br · 30 de jul. de 2024
    R$ 23 bilhões em quatro anos; o supercomputador entre as ações. Não publica execução por ano.
  21. 21
    NVIDIA H100 Tensor Core GPU — datasheet
    NVIDIA · 21 de mar. de 2023
    989 TFLOPS FP16 denso / 1.979 esparso (SXM). B200: 2,25 / 4,5 PFLOPS, pela página do DGX B200.
  22. 22
    NVIDIA ethernet networking connects world's largest AI supercomputer, built by xAI
    NVIDIA · 28 de out. de 2024
    Colossus, fase 1: 100 mil H100.
  23. 23
    GLM-5.3-Flash: cheap tokens, expensive minutes
    Memeburn · Marko Nguyen · 30 de ago. de 2026
    150 milhões de tokens no conjunto de avaliações contra mediana de 110; 49 tokens por segundo contra 88 do GLM-5.3.
  24. 24
    DeepSeek-V3 technical report
    DeepSeek-AI · arXiv 2412.19437 · 27 de dez. de 2024
  25. 25
  26. 26
    Qwen3: think deeper, act faster
    Alibaba Qwen · 29 de abr. de 2025
  27. 27
    Kimi K2: open agentic intelligence
    Moonshot AI · 11 de jul. de 2025
  28. 28
  29. 29
    OpenAI API pricing — página oficial e anúncios de lançamento (2023–2026)
    OpenAI · 03 de set. de 2026
    GPT-4 (mar 2023) US$ 60; GPT-4 Turbo (nov 2023) 30; GPT-4o (mai 2024) 15 e (ago 2024) 10; GPT-4.1 (abr 2025) 8; GPT-5 (ago 2025) 10 — pelos anúncios de cada lançamento. Datas de 2026 pela Wikipédia (GPT-5.4, 5.5, 5.6).
  30. 30
    Supercomputador de Macaíba: o anúncio, as dúvidas e o que vem pela frente
    Blog do Jener · 22 de ago. de 2026
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